Estudo reconstrói extremos sazonais de temperatura desde 850 e mostra que, desde os anos 1970, o calor excepcional deixou de ser apenas regional: ele passou a atingir grandes extensões do planeta ao mesmo tempo

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Durante séculos, episódios de calor extremo apareceram no registro climático como acontecimentos separados no espaço e no tempo. Um continente aquecia enquanto outro permanecia relativamente estável; uma estação excepcional podia ser seguida por décadas de comportamento mais próximo da variabilidade natural. Essa lógica, segundo um novo estudo publicado na Nature Communications, nesta quarta-feira (26), já não descreve adequadamente o clima contemporâneo. A partir da reconstrução de dados que remontam a 850 d.C., pesquisadores identificaram uma mudança abrupta: desde a década de 1970, eventos sazonais de calor extremo tornaram-se simultaneamente mais intensos, mais extensos e mais sincronizados entre diferentes regiões do planeta.
O trabalho, liderado por Jianping Duan, Fengqi Hao e Yixuan Zhou, da Beijing Normal University e de instituições parceiras, reuniu pesquisadores da China, Suécia, Reino Unido, Alemanha e Itália. O grupo combinou observações instrumentais, reconstruções paleoclimáticas e simulações de modelos climáticos para investigar um fenômeno que havia recebido menos atenção: os eventos sazonais de calor globalmente síncronos, ou GSSWEs, na sigla em inglês. O estudo foi recebido em outubro de 2025 e aceito para publicação em 12 de agosto de 2026.
A inovação central foi criar o Extremity Index (EI), um índice destinado a medir duas dimensões simultaneamente: quanto a temperatura se afasta do padrão local e quanto da superfície terrestre é atingida ao mesmo tempo. O cálculo considera áreas que ultrapassam o percentil 95 da temperatura sazonal registrada entre 1901 e 1930 e combina a intensidade da anomalia com a área efetivamente afetada. Assim, um episódio não precisa apresentar a maior temperatura média global para ser considerado excepcional: se o calor atingir simultaneamente uma parcela muito grande das terras emersas, seu grau de extremidade também aumenta.
A diferença em relação às métricas convencionais é substantiva. No inverno do Hemisfério Norte de 1968/69, por exemplo, aproximadamente 24% da área analisada ultrapassou o limiar definido pelos pesquisadores, enquanto a anomalia média global sobre as terras foi de – 0,58 °C. Em 1985/86, uma proporção semelhante, cerca de 24%, ultrapassou o limiar, mas a anomalia média foi de + 0,68 °C. O contraste demonstra por que temperatura média e extensão espacial, isoladamente, podem produzir leituras incompletas.
O problema torna-se ainda mais evidente quando os eventos são classificados. No inverno boreal de 2009/10, a anomalia média de temperatura colocou a temporada apenas na 22ª posição entre os eventos de dezembro-fevereiro desde 1901. Pelo novo índice, porém, ela saltou para a 3ª posição, justamente porque o calor excepcional ocorreu de forma extensa e espacialmente sincronizada. O resultado sugere que determinadas crises climáticas podem parecer moderadas quando observadas apenas pela média global, mas revelar uma dimensão muito mais extraordinária quando se considera simultaneamente a área atingida.
A ruptura histórica aparece com maior nitidez a partir dos anos 1970. Entre 850 e 1969, os pesquisadores encontraram níveis relativamente baixos de extremidade, com eventos mais fragmentados. Depois de 1970, o índice aumentou nas quatro estações do ano e alcançou níveis que não aparecem anteriormente no conjunto de dados utilizado. Nos meses de dezembro-fevereiro, apenas 18% dos anos anteriores a 1970 ultrapassaram o limite correspondente aos 5% de eventos mais extremos de todo o período analisado. Depois de 1970, essa proporção saltou para 89%. Em junho-agosto, passou de 15% para 86%.
A transformação não envolve apenas o aumento da média. A variabilidade do índice também cresceu, especialmente depois do ponto de mudança identificado na década de 1970. A análise de variância móvel de 30 anos indica uma alteração persistente no comportamento estatístico dos eventos, sugerindo que o clima recente não apenas produz temporadas mais extremas, mas também amplia a oscilação em torno desse novo patamar.
A pergunta decisiva é quanto dessa mudança pode ser atribuída à atividade humana. Para respondê-la, os pesquisadores recorreram a análises de detecção e atribuição utilizando modelos submetidos a diferentes combinações de forçantes: todas as influências externas, fatores antropogênicos, gases de efeito estufa, aerossóis e causas naturais. O resultado aponta para uma conclusão robusta: a influência antropogênica é detectável, enquanto a forçante natural isolada não explica adequadamente a tendência observada.
Os números são particularmente expressivos. Entre 1901 e 2020, a tendência observada do EI foi de 0,091 por década em dezembro-fevereiro e 0,115 por década em junho-agosto. A contribuição atribuída à ação antropogênica foi estimada em 0,078 por década e 0,096 por década, respectivamente. Quando considerados isoladamente, os gases de efeito estufa produziram tendências estimadas de 0,09 por década no primeiro período e 0,13 por década no segundo. Isso corresponde a aproximadamente 79% e 112% das tendências observadas, respectivamente. Os próprios autores ressaltam que a contribuição superior a 100% em JJA reflete a incerteza da atribuição e a diferença entre a resposta simulada e a observada, e não significa que os gases de efeito estufa expliquem mais que toda a tendência física de forma literal.
Os eventos mais extremos do registro instrumental recente oferecem uma espécie de retrato do novo padrão. Os dois maiores EI de dezembro-fevereiro ocorreram em 2015/16 e 2019/20, ambos com índice de 0,40. Nessas temporadas, respectivamente 74,40% e 72,87% da área terrestre considerada ultrapassou o limiar local. Em junho-agosto, os maiores valores ocorreram em 2021 e 2023, com EI de 0,39 e 0,51 e áreas acima do limiar de aproximadamente 74,97% e 81,74%.
Há ainda uma geografia importante nessa transformação. Os trópicos aparecem como protagonistas porque apresentam menor variabilidade natural de temperatura. Isso significa que anomalias relativamente menores podem ultrapassar com maior frequência os limiares locais. No verão de 2023, 84,7% da área terrestre tropical analisada estava acima do limiar; em 2021, a zona temperada do Hemisfério Norte chegou a 80,1%. Nos eventos de dezembro-fevereiro de 2015/16 e 2019/20, a cobertura na zona temperada norte alcançou 82,9% e 84,3%, respectivamente.
Para os autores, essa dimensão espacial é fundamental para compreender o risco climático. Calor simultâneo em várias regiões pode pressionar redes elétricas, aumentar a exposição humana e dificultar a transferência de recursos entre áreas afetadas. Quando combinado à seca, pode favorecer incêndios generalizados e perdas agrícolas simultâneas. No entanto, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o EI mede a transformação física do clima e não constitui, por si só, uma medida direta do risco social.
A mensagem científica é, portanto, menos sobre um planeta que simplesmente ficou mais quente e mais sobre um planeta em que o calor extremo está adquirindo uma nova arquitetura. O que antes aparecia como uma coleção de episódios regionais agora tende a ocorrer como fenômeno espacialmente coerente. A reconstrução de 1.174 anos sugere que a mudança observada desde os anos 1970 está fora do padrão identificado anteriormente no registro combinado de reconstruções e modelos.
O desafio que emerge desse resultado é também conceitual. Estratégias de adaptação baseadas apenas em médias nacionais ou em eventos extremos isolados podem subestimar uma ameaça que cresce justamente pela simultaneidade. Se grandes áreas do planeta enfrentarem calor excepcional ao mesmo tempo, a questão não será apenas quanto a temperatura subiu em cada lugar, mas quantos lugares estarão enfrentando o mesmo problema simultaneamente.
É essa mudança de escala que o estudo de Duan, Hao, Zhou e colaboradores coloca no centro do debate climático: o futuro mais quente pode não ser apenas um futuro de extremos maiores. Pode ser um futuro em que esses extremos acontecem juntos — e em uma escala que a história climática dos últimos mil anos raramente registrou.
Referência
Duan, J., Hao, F., Zhou, Y. et al. Eventos recentes de aquecimento sazonal globalmente síncronos, sem precedentes desde 850 d.C. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-76985-4